Ao alcançar a construtora Queiroz
Galvão, alvo da Operação Resta Um, 33ª fase da Lava Jato, a força-tarefa da
maior operação contra corrupção no País, abre uma nova frente de investigação
que, por consequência, pode atingir o PSDB e o PMDB. Delatores já relataram à
Lava Jato as relações da empreiteira com os dois partidos.
O primeiro
colaborador a citar a Queiroz Galvão em delação foi o ex-diretor de
Abastecimento da Petrobrás Paulo Roberto Costa. Em outubro de 2014, o executivo
declarou que o ex-presidente do PSDB Sérgio Guerra – morto em março de 2014 – o
procurou e cobrou R$ 10 milhões para que a Comissão Parlamentar de Inquérito da
Petrobrás, aberta em julho de 2009 no Senado, fosse encerrada. Segundo Costa, o
dinheiro foi providenciado pela empreiteira Queiroz Galvão. O tucano teria dito
ao ex-diretor que o dinheiro seria usado para a campanha de 2010.
O doleiro
Alberto Youssef, que também fez delação, já havia confirmado as informações
sobre o pagamento ao PSDB, reveladas por Paulo Roberto Costa. Em janeiro deste
ano, outro delator Carlos Alexandre de Souza Rocha, o Ceará, confirmou à
Procuradoria-Geral da República o pagamento de R$ 10 milhões ao ex-presidente
do PSDB para “abafar” a CPI da Petrobrás de 2009.
Um dos
delatores-bomba da Lava Jato, o ex-presidente da Transpetro Sérgio Machado
envolveu o presidente em exercício Michel Temer (PMDB) em propina da para
campanha eleitoral em São Paulo. O delator revelou uma suposta operação de
captação de recursos ilícitos, envolvendo Temer e o senador Valdir Raupp
(PMDB-RR), para abastecer, em 2012, a campanha do então candidato Gabriel
Chalita (ex-PMDB, atualmente no PDT) para a Prefeitura de São Paulo. A Queiroz
Galvão teria repassado R$ 1,5 milhão para o esquema. As declarações de Sérgio
Machado não fazem parte da Operação Resta Um e estão no Supremo Tribunal
Federal (STF).
Sérgio Machado revelou também em um de seus
depoimentos o medo e a preocupação com possível 'delação' da empreiteira
Queiroz Galvão. Empreiteiras não fazem delação premiada, mas, sim,
acordos de leniência. O delator poderia estar se referindo aos executivos da
empreiteira quando disse do seu temor de uma eventual delação da empreiteira. A
Queiroz Galvão não fechou leniência e seus dirigentes não fizeram delação
premiada na Lava Jato.
Sérgio Machado
foi próximo aos barões do PMDB e liderou a Transpetro entre 2003 e 2014. O
executivo relatou à Procuradoria-Geral da República que em conversas com o
presidente do Senado Renan Calheiros (PMDB-AL) e com o ex-senador José Sarney
(PMDB-AP), em fevereiro desate ano, a 'delação' da Queiroz foi colocada na
conversa.
"Conversaram
ainda sobre o receio do depoente de novas delações e o risco que isso
representava para todos, porque empresas que poderiam vir a fazer delação
tinham mantido relações com o depoente e feito doações de vantagens ilícitas,
inclusive oficiais, para todos com recursos oriundos dos contratos da
Transpetro", disse o delator.
"Registrou
que isso representaria um enorme risco para todos, sobretudo com relação às
empresas Queiroz Galvão, que ainda não havia feito delação, e Camargo Corrêa,
cujo prazo do acordo de leniência ainda estaria em aberto; que apesar de o
depoente tratar diretamente com os donos de tais empresas ainda assim haveria risco
em caso de delação."
Os partidos
negam ter recebido valores ilícitos. A empreiteira reiteradamente tem negado o
repasse.
Por
Julia Affonso, Ricardo Brandt, enviado especial
a Curitiba, e Fausto Macedo - Estadão