Nessa corrida rumo à conquista do Nordeste, o capitão tem contado
com o apoio fundamental de um “coronel”. A ida recente aos três estados da
região — não por acaso, governados pelo PT — foi articulada pelo ministro do
Desenvolvimento Regional, Rogério Marinho. Ao ser convidado para a pasta em
fevereiro, no lugar de Gustavo Canuto (considerado distante da política),
Marinho, que é do Rio Grande do Norte, impôs uma condição: tocar um programa de
ação para o Nordeste, exigência que ia ao encontro das pretensões de Bolsonaro
não só de alavancar a popularidade, mas de servir como um trunfo para a
aproximação que já desenhava com o Centrão. À frente de uma pasta com 33
bilhões de reais de orçamento, Marinho vem liderando um plano de investimentos
em infraestrutura de grande impacto social — baseado em água, moradia,
saneamento e melhorias urbanas — e que atinge em cheio um eleitorado que vota
de acordo com as benesses recebidas do governo.
A pedra de toque tem sido os projetos hídricos, como as obras no
São Francisco, o Ramal do Agreste (Pernambuco), a Vertente Litorânea (Paraíba)
e barragens no Rio Grande do Norte. “Só o Lula havia tido receptividade como a
de Bolsonaro”, disse o senador Ciro Nogueira (PP-PI), um dos caciques do bloco,
sobre a visita que acompanhou a São Raimundo Nonato. O recurso às armas do
inimigo vai além. Marinho também destravou outro projeto símbolo dos anos
petistas, o Minha Casa Minha Vida, que estava longe de ser prioridade. Uma versão
atualizada do programa vai incluir a oferta de novas moradias na região. Também
foram retomadas as obras de 11 000 unidades, número que deve chegar a 50 000
até o fim do ano. O Bolsa Família, outro símbolo dos anos petistas, que não
vinha aceitando novos beneficiários, reabriu o cadastramento e chegou a 14,2
milhões de famílias, o segundo maior número da história — 49% das que recebem o
benefício estão no Nordeste. A bola da vez agora é o auxílio emergencial. Os
estados da região concentram também 32,7% do total pago pelo benefício. Nos
últimos dias, o governo passou a estudar uma nova prorrogação do auxílio.
Embora boa parte dos planos da dupla Bolsonaro-Marinho ainda não
tenha saído do papel, a estratégia de concentração de recursos para a região já
apresenta resultados — o que demonstra o potencial de avanço do presidente
daqui para frente. Levantamento feito para VEJA pelo instituto Paraná Pesquisas
entre os dias 18 e 21 de julho revelou que a aprovação ao governo no Nordeste
saltou de 30,3%, em abril, para 39,4%. O percentual dos que pretendem reeleger
Bolsonaro em 2022 foi de 17,6% para 21,6%.
Curiosamente, antes de entrar para o governo e assumir um dos
papéis mais estratégicos para o Palácio do Planalto, Rogério Marinho estava
prestes a desistir da vida política após não ter obtido votos suficientes para
se reeleger deputado federal em 2018, o que agradava à família, preocupada com
o fato de ele ter passado por uma cirurgia cardíaca. Os pedidos para que
desacelerasse foram suplantados, porém, pelo convite para ser o secretário
especial encarregado de aprovar a reforma da Previdência, a primeira batalha de
Bolsonaro no Congresso. A difícil missão foi cumprida com louvor, rendeu
elogios e o lugar no primeiro escalão. A capacidade de articulação, construída
em três mandatos na Câmara — desde 2007 era filiado ao PSDB, que deixou em
junho —, colocou-o em posição de destaque em uma gestão marcada pela falta de
traquejo político.
Disciplinado, Marinho vai continuar tocando a missão dada pelo
presidente com afinco. A próxima viagem está marcada para o dia 13 ao Pará —
onde Bolsonaro também perdeu para o PT —, com parada obrigatória em alguma
cidade nordestina. Com a perda de apoio em setores da classe média, em razão
principalmente do comportamento errático na pandemia e da evasão de Sergio
Moro, o presidente aposta na conquista de nacos do eleitorado onde o PT sempre
dominou. A rachadura na trincheira adversária já é visível. E, ao que parece, o
cerco do capitão e do seu “coronel” está apenas no começo.
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