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| © FLORIAN PLANCHEUR Mensagens em diferentes idiomas projetadas no Cristo Redentor no último dia 18. |
O Brasil ultrapassou neste sábado a marca dos 1.000 casos
confirmados do novo coronavírus. Ao menos 18 pessoas morreram em
decorrência da doença até o momento. Os números compõem uma curva de crescimento da
pandemia muito parecida com a de países da Europa, como Itália,
França e Espanha, onde milhares de pessoas já morreram. “Estamos um pouco acima
da Alemanha, bem abaixo da Itália e bem afastados da Coreia”, afirmou João
Gabbardo, secretário-executivo do ministério da Saúde, neste sábado, frisando,
a todo momento, que ainda temos poucos casos rastreados e que toda comparação
tem que ser feita com cautela.
A Alemanha tem
se mostrado uma exceção até o momento, com uma baixa taxa de letalidade diante
dos outros países: 68 mortos para 19.000 casos confirmados,
com várias hipóteses sendo discutidas para essa boa performance. Os alemães,
assim como os sul-coreanos, vêm mostrando ao mundo que uma das chaves para
tentar barrar a pandemia é a realização de testes em massa da população. Por
isso, o Ministério da Saúde anunciou que, além dos 27.000 testes já enviados
aos Estados, se prepara para realizar mais 10 milhões de testes rápidos nas
próximas semanas. A expectativa é implementar em alguns lugares o esquema
de drive thru, a exemplo da Coreia do Sul, onde as pessoas não
precisaram nem sair do carro para serem testadas. Gabbardo disse que só agora a
pasta está prevendo o volume de provas que era um desafio conseguir
fornecedores que tivessem os prazos e qualidades. Só será testados quem estiver
com sintomas.
Mas, por
enquanto, os casos brasileiros da doença aumentam em uma crescente preocupante.
Somente no Estado de São Paulo, epicentro dessa pandemia, há mais de 400
confirmações e 15 óbitos. Para tentar conter o vírus, as autoridades realizam
projeções em busca de tomar medidas antecipadas e planejar recursos. O médico
infectologista David Uip, coordenador da equipe que combate a pandemia em São
Paulo, até a semana passada afirmava trabalhar com diversos cenários para o
Estado, de 1% a 10% da população infectada. Já nesta sexta, ele mesmo admitiu
que os cenários podem chegar a até 20% de doentes, o que daria nove milhões de
pessoas. Internamente, a reportagem apurou que o Estado trabalha, por
precaução, com cenários ainda mais extremos, com até 60% das pessoas infectadas
e, dentro deles, uma porcentagem que precisará de internação.
Atila
Iamarino, biólogo e doutor em microbiologia, explica que as projeções são
feitas em cima de fatores como o comportamento da população diante da doença,
quantas pessoas entram em contato umas com as outras e como o vírus se espalha.
Baseada no histórico de países como China, Espanha ou Itália, as projeções
estão tentando ser desenhadas aqui.
Porém,
Iamarino lembra que no Brasil há um fator com o qual o vírus ainda não havia se
deparado em outros países. E não é o calor. “China, França,
Espanha, Itália, Estados Unidos e Coreia não têm favela”, diz. “Não há como
isolar as pessoas que moram em um cômodo com várias outras”. Ele afirma
que o isolamento social total, isto é, proibir
que as pessoas saiam de casa, é a única medida que pode ser tomada para que o
resultado dessa “guerra”, como afirmou o governador João Doria, não seja ainda
mais devastador. “Por isso, aqui a situação é muito deferente. Mesmo os modelos
que estão sendo estudados de como a doença progride podem ser muito otimistas
num cenário como o nosso”, diz. “Na Itália houve somente um foco da doença, que
foi a região da Lombardia”, afirma ele. “Hoje tem várias Lombardias dentro da Espanha acontecendo ao mesmo tempo.
E, assim como na Espanha, aqui no Brasil não haverá somente um foco da doença”.
Na
sexta-feira, o ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, fez uma afirmação que
condiz com esse cenário pintado pelo biólogo. “O cenário que estamos vendo,
diferente da China, é que no Brasil estamos com todos os Estados com
crescimento igual, e isso nos preocupa”. Mandetta também afirmou que até o
final do mês que vem, o sistema vai colapsar. “Temos aí 30 dias para que a
gente resista razoavelmente bem, com muitos casos, dependendo da dinâmica da
sociedade. Mas, claramente, em final de abril nosso sistema entra em colapso”.
Mais tarde, em entrevista coletiva, o ministro reforçou que o colapso somente
ocorrerá se nada for feito.
O ministro tem
motivos para se preocupar. “Se a doença progride a ponto de sair de uma única
região, os casos começam a ser empilhados”, explica Iamarino. Nos Estados Unidos,
por exemplo, há ao menos três focos da pandemia – Nova York, Washington e a
Califórnia. “Cada um desses focos tem potencial de ser uma Wuhan. São
três Wuhans empilhadas”, diz, sobre a primeira cidade a
registrar a pandemia.
“Cobra silenciosa”
Um dos maiores
problemas dessa doença, diz Iamarino, é justamente a sua ausência de sintomas.
“Quando a China fez lockdown [proibiu a circulação das
pessoas], e passou a ir atrás de testar todo mundo, perceberam que, enquanto
eles estavam contabilizando só quem ia para o hospital com sintomas sérios, eles perdiam 86% das infecções que estavam
acontecendo”, diz. “Até a pessoa procurar um hospital e receber o
diagnóstico, nove dias já tinham se passado”.
E a demora em
apresentar os sintomas é o que ajuda a tornar o coronavírus tão letal. “79% das
transmissões da Covid-19 acontecem antes mesmo de as pessoas terem os sintomas”,
diz. Ele compara com a SARS, doença em que 99% dos infectados desenvolvem febre
e a transmissão só ocorre depois da febre. “A SARS é muito transmissível, mas
dá sinais. É como uma cobra muito venenosa, mas com o chocalho na ponta do
rabo. Você ouve ela chegando”, diz. “Já a Covid-19 é como uma cobra silenciosa:
você não percebe ela chegando. E quando percebe, pode ser tarde”.
El País
